26/05/2013

'O IMPORTANTE É CONSERVAR AS RAÍZES'

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O maçambiqueiro Francisco Apolicarpo Mendes, 73 anos, nasceu em Santa Catarina, distriro de Ipoema. Depois de rodar o Brasil, como ele mesmo diz, foi morar em Serra dos Linhares, terra natal de sua esposa, Oracina Mendes de Jesus, 71. 
 
Em sua casa na Serra dos Linhares, distrito de Senhora do Carmo, Francisco narra histórias do tempo em que fazia parte da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário, em Belo Horizonte. 
 
Entre um canto e outro de maçambique, traduz um pouco do “dialeto africano”, chamado por ele de “língua de preto”, conta histórias como a do mítico Chico Rei – escravo que se tornou dono de mina de ouro na antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto – e explica o que é uma guarda de maçambique, além de casos sobre a guarda da qual ele foi membro durante 35 anos.
 
“Eu não sou exclusivo cantador de marujo, sou cantador de maçambique. O maçambique usa quatro caixas, quatro patangomes e um xique-xique com duas alças de um lado e do outro, e campanha, que são as latinhas de molho de tomate que a gente enche de bolinhas e amarra nas pernas, quatro de um lado e quatro de outro. Usa um bastão em vez de espada. O bastão, cada um tem o seu, cada um tem o seu segredo. Os pretos velhos dos cativeiros, cada um tem a sua defesa, o meu é feitio de uma cobra e os outros têm outros feitios.
 
“Eu fui chefe de guarda de marujos em Belo Horizonte; fui o primeiro capitão até o capitão mor, que é o último, na Guarda de Nossa Senhora do Rosário do bairro Providência. Depois, quando eu vim para cá, eu cedi para o Peronti.
 
Ê minha Angola vem de lá
Minha Angola é de congá 
Eu falei com emoção
Ê vamos trabalhar oiê…
Viva Deus e viva mundo
Viva mundo e viva mar
Viva aguarda aqui presente,/
viva o povo do lugar oiê.
Ê minha Angola
Ê minha Angola
Ê Angola de papai, Angola de mamãe 
Segura essa Angola de Nossa Senhora
Ê ô ê ô, ê ô ê á
É de coco é de paia é de vovô
Nossa amiga de cor é uma só.
 
“Esse é o dialeto africano, é uma língua meio misturada. Eles não falam assim diretamente, porque no tempo do cativeiro, que eu estudei, igual os véios me passou... João Manoel de Deus de Sete Lagoas, era bisneto de Chico Rei... Que Chico Reis quando veio para o Brasil, o navio veio muito cheio, então no meio da viagem, teve que jogar um mucado de gente n’água, então jogaram as duas filhas dele e a mulher dele e sobrou da família de Chico Rei Anã e Canaã, e eles conseguiram atracar em Porto seguro na Bahia. Veio rodando, veio rodando, até que parou em Vila Rica, que é Ouro preto. Aí rompeu, deu a alforria, Chico Rei começou a trabalhar e a comprar a alforria dos outros companheiros dele, entendeu para dar liberdade, antes da princesa Isabel acabar consertando tudo aquilo.
 
“Lá na guarda eu tive 35 anos, minha língua é língua de preto:
 
Ê papai já morreu
titio não aparece
para deixar herança
para quem não merece.
 
Canta Francisco, e depois solta uma boa gargalhada e explica: “Isso o cara não percebe não, mas tá xingando a pessoa, o dialeto africano é muito complicado. Para mim chamar o senhor de mentiroso eu não posso falar que o senhor é mentiroso. 
 
Ê ema canela fina e corredeira
Quando sai na carreira
Risco de pena na ladeira.
 
E continua: “Tá te chamando de mentiroso. No maçambique o pessoal tem que saber o fundamento do dialeto africano.
 
Pus a galinha pra chocar /
no meio do capim meloso,
mas o ovo gorou tudo, 
mas o pintinho tá desta altura.
 
Francisco explica novamente. “Se o ovo tá gorado ele não vai tirar. Atualmente ajudo os marujos e mais adiante tenho vontade de formar uma guarda. Se eu consegui os caixeiros, se eu consegui as coisas, eu tinha vontade sim…. Não tem discriminação, tem que ter vontade, tem que ter rei e rainha, pelo menos a rainha da cruz, do rosário e da espada, tem que ter um rei. 
 
“O fundo do maçambique está todo no bastão” – ele pega outro bastão e mostra. “Foi a madeira que São José preparou, ele não sabia do poder que o bastão tinha ou tem. Este bastão foi o falecido Deolino que preparou para mim. O maçambique ele é muito forte, a gente tem que ir no reino, abrir o reino e você é obrigado a fechar o corpo de seus componentes todinhos. Entendeu? 
“Por que o maçambique tem uma turminha de gente meio sabida. Bom, eu não sei nada, graças a Deus, mas tem muita gente sabido. Nêgo chega assim, tem uma guarda cantando, daí a pouco os instrumentos começam a arrebentar, nêgo começa a ficar rouco, nêgo começa a ficar meio desanimado... Porque um trabalha como carreiro do outro... De Angola, com pai João, mais o Joaquim Tora Farinha e aí sucessivamente daí para diante, vai querer amarrar o cara, mas o capitão dá um toque, pega a bandeira, faz uma meia lua e vai, deixa livre.
 
“A mensagem, gente, o que eu penso é conservar essas raízes e passar elas para alguém. Sobre benzeção, inclusive no Museu do Tropeiro tem alguma coisa sobre Francisco Benzedor. Para dar continuidade tinha um filho, agora ele é missionário, outro é pastor. Vai chegar. Nossa Senhora do Rosário vai iluminar e com Deus adiante, vai dar continuidade, não pode acabar as raízes não. 
“Eu tenho uma paixão por nossa Senhora do Rosário, eu tinha prazer de ir lá, no bairro Providência, a casa dá frente para as duas ruas, de um lado pro outro. Dá frente pra Madre dos Anjos era portão aberto, fazia comida para Remundo e todo mundo, quando terminava a festa saía repartindo para aqueles asilos afora, graças a Deus. 
 
“Comida de Rosário não precisa da senhora ter medo não, dá e sobra. Não sei explicar para a senhora não, mexi com guarda 35 anos, lá nós chamava cinco, seis guardas de fora, nós chamava guardas dos bairros Sagrada Família e da Graça, de Sete Lagoas, Vespasiano e Sabará e o pessoal todo comia. Nós saímos de lá e aqui é a mesma coisa.”
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